JN usa 85% das perguntas para polêmicas de candidatos e 15% para propostas

 

Cerca de 85% das perguntas realizadas aos candidatos à Presidência da República na série de entrevistas do “Jornal Nacional” nesta semana foram dedicadas a temas polêmicos e incômodos aos presidenciáveis, deixando apenas 15% do espaço para questionamentos específicos sobre propostas, de acordo com levantamento realizado pelo UOL.

Os apresentadores e editores do telejornal William Bonner e Renata Vasconcellos pressionaram os candidatos Ciro Gomes (PDT), Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede) a se pronunciarem sobre temas específicos, que diziam respeito tanto à trajetória política como a posicionamentos pessoais de cada um deles.

Enquanto os candidatos responderam de 14 a 16 perguntas sobre polêmicas, proposições específicas para um futuro governo tiveram um espaço muito menor: foram, em geral, de 2 a 4 questionamentos sobre propostas. O levantamento não levou em consideração a repetição dos temas e nem as intervenções realizadas pelos jornalistas.

Alianças e práticas partidárias

Marina, por exemplo, passou cerca de 22 dos pouco mais de 27 minutos disponíveis para a entrevista respondendo a perguntas sobre o processo de formação da Rede, partido fundado por ela em 2015, e sobre as alianças da sigla nos estados para as eleições deste ano.

Ela respondeu a 14 perguntas sobre polêmicas e duas sobre propostas, que abordaram a reforma da Previdência e a formação de uma equipe “segura”, sem envolvimento em casos de corrupção, para um eventual governo seu. Mesmo assim, a candidata, que defendeu um debate sobre a idade mínima para a aposentadoria, foi confrontada pela jornalista Renata Vasconcellos se suas respostas não permaneciam “vagas”.

“É importante a gente dizer que vai debater a idade mínima. Mas tem gente que se incomoda com a ideia de debater, porque a gente se acostumou com pacotes”, respondeu Marina.

Reprodução/TV Globo

Candidata à Presidência Marina Silva (REDE-AC) participa de entrevista no Jornal Nacional

Já Ciro protagonizou um embate com Bonner sobre o presidente do PDT, Carlos Lupi. Os dois apresentaram informações desencontradas: enquanto o jornalista afirmava que Lupi é réu na Justiça, Ciro negava e dizia que o presidente do partido tinha sua “confiança cega”.

O candidato do PDT também defendeu sua chapa, que tem como vice a senadora Kátia Abreu (PDT-TO) –figura que Bonner apontou ser criticada por setores da esquerda—comparando o arranjo à situação de Lula e do empresário José Alencar, seu ex-vice-presidente por oito anos.

Ciro respondeu a 14 perguntas sobre polêmicas, enquanto as propostas tiveram espaço em outros dois questionamentos dos jornalistas. Foram abordadas a promessa do candidato de tirar o nome dos brasileiros do SPC (Sistema de Proteção ao Crédito) e o que ele pretende mudar, se eleito, para conseguir negociar projetos importantes para o país no Congresso.

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Ciro Gomes (PDT) durante entrevista ao “Jornal Nacional”

Embates sobre gestão e violência

Candidato do PSL, Jair Bolsonaro foi perguntado sobre o histórico de sua família na política, a violência no país, declarações homofóbicas e a desigualdade de gênero.

O deputado federal, que está no Congresso desde 1991, não respondeu diretamente quando questionado sobre o que o diferenciava de outras pessoas que fizeram da política uma profissão, inclusive estimulando a eleição de parentes — no caso, seus filhos.

Bolsonaro também protagonizou um embate com os jornalistas ao ser confrontado sobre afirmações suas de que a violência só seria combatida com mais violência. “Se um bandido está com um [fuzil] 762 atirando, tem que ter uma [metralhadora].50”, afirmou, defendendo que policiais que matarem criminosos têm que ser condecorados.

Questionado por Renata, o candidato voltou a afirmar: “Você tem que atirar, se não atirar, não vai resolver nunca. Enquanto isso continuar acontecendo, infelizmente vão continuar existindo mortes de policiais e integrantes das Forças Armadas em todo o Brasil”, disse, ao que Bonner interveio: “E de inocentes no meio de tiroteios, né, candidato?”.

Ao responder a uma pergunta sobre desigualdade de gênero e insinuar que Renata Vasconcellos não ganharia o mesmo que Bonner, o candidato ouviu um sermão da jornalista.

Bolsonaro respondeu a 16 perguntas sobre temas polêmicos e outras duas sobre propostas. Uma delas foi, justamente, se pretende adotar mecanismos para evitar a desigualdade salarial entre homens e mulheres.

“Olha, mas é lógico que a gente faria, mas estou falando que o Ministério Público do Trabalho pode ser questionado”, respondeu.

A outra foi sobre suas declarações em apoio à retirada de direitos trabalhistas como forma de garantir empregos. O candidato, no entanto, não respondeu de forma objetiva quais direitos seriam retirados com seu apoio.

Reprodução/TV Globo

Com anotações na mão, Bolsonaro participa de entrevista no JN

O número de perguntas específicas sobre propostas só foi ligeiramente maior no caso de Geraldo Alckmin, que respondeu a três questionamentos sobre proposições. Mesmo assim, as perguntas vinham contextualizadas com ataques à gestão do tucano no estado de São Paulo.

Mencionando atrasos na entrega de obras do metrô e do Rodoanel, Bonner questionou o tucano sobre como ele faria para “convencer o eleitor” de que irá “botar nos trilhos a questão da mobilidade no país inteiro”.

A mesma roupagem foi utilizada para perguntas sobre propostas para a habitação e as OSs (organizações sociais) como alternativa ao SUS (Sistema Único de Saúde).

Também sobre a época em que o tucano ocupou o governo do estado paulista, foram abordadas a segurança pública e a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), que Alckmin negou ser comandada de dentro das prisões. O tucano também voltou a sair em defesa de Laurence Casagrande, ex-presidente da Dersa e seu ex-secretário de Logística e Transportes, que foi preso acusado de desvios na obra do Rodoanel.

Além das investigações na Dersa, os temas mais espinhosos abordados com Alckmin foram a permanência do investigado Aécio Neves e do condenado Eduardo Azeredo no PSDB e sua coligação com o centrão, cujos partidos têm membros investigados na Operação Lava Jato.

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Geraldo Alckmin (PSDB) participa de entrevista no Jornal Nacional

Marina falou mais, mas foi mais interrompida

Ao mesmo tempo em que foi a candidata que mais falou ao longo da entrevista –cerca de 59% do período disponível–, Marina foi mais interrompida do que os outros presidenciáveis.

De acordo com a “Folha de S. Paulo”, Bonner e Renata cortaram 26 vezes as falas da candidata, enquanto Alckmin foi interrompido 19 vezes, Ciro 17 e Bolsonaro, 15.

Os três candidatos falaram por tempos semelhantes, segundo levantamento do instituto Spot: Ciro ocupou 55% do tempo de sua entrevista, enquanto Bolsonaro falou por 56,5% e Alckmin por 55,9%.

Ciro, Bolsonaro, Alckmin e Marina, principais presidenciáveis mais bem colocados na última pesquisa Datafolha, foram convidados pela Globo a participar do programa.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que lidera a pesquisa nos cenários em que aparece, não participou. A Globo argumentou que ele está proibido pela Justiça de conceder entrevistas. Condenado no caso do tríplex, da Operação Lava Jato, Lula está preso em Curitiba há quase cinco meses.

Fonte: noticias.uol.com.br