Após 6 dias, chuva dá trégua em Coronel João Sá; cidade foi alagada com rompimento de barragem

Depois de seis dias de chuva forte, o sol apareceu na manhã  deste sábado (13) na cidade de Coronel João Sá,  na divisa da Bahia com Sergipe, e trouxe algum alívio à população afetada pelo rompimento de uma barragem e pelo menos três outros barramentos no entorno do município  e da cidade vizinha de Pedro Alexandre, na última quinta-feira (11).

A análise do Corpo de Bombeiros, que mantém 79 profissionais e 11 veículos na cidade por tempo indeterminado, e da prefeitura é de que a situação melhorou e o risco reduziu consideravelmente entre a noite de sexta-feira e a manhã de sábado.

Por volta das 5h, o Rio do Peixe subiu e voltou a inundar a Ponte do Sanharol, que liga um lado ao outro da cidade de Coronel João Sá e também dá acesso a povoados e fazendas da região. De acordo com o prefeito Carlos Sobral, a alta no nível do rio, desta vez, teve relação  com uma manobra para evitar o rompimento da barragem do povoado de Boa Sorte, também conhecida como Barragem Três Pontas.

“A gente conseguiu abrir o vertedouro da barragem por baixo e deixou a água passar para seguir o curso, tanto que o nível do rio voltou a subir, mas a situação de risco reduziu consideravelmente”, disse o prefeito.

Logo no início da manhã, a água chegou a encobrir a ponte, mas o nível começou a baixar cerca de 10 cm por hora. Às 9h30, equipes do Corpo de Bombeiros ajudavam moradores a atravessar a estrutura a pé, levando mantimentos e outros itens, como medicamentos.

Pouco antes das 11h, a travessia foi liberada para motos e para veículos levando mantimentos, passando um por vez.

“A chuva que teve de madrugada teve um volume grande e isso provocou um maior fluxo de água. Estamos monitorando. Estamos com uma equipe terrestre e outra aquática além dos helicópteros para analisar a situação da região”, disse o tenente-coronel Ramon Diego, do Corpo de Bombeiros, um dos responsáveis por comandar a operação em Coronel João Sá.

Antes da liberação, o pecuarista Djalma Góes contou com o apoio dos bombeiros para fazer a travessia de seis latas de leite, cada uma pesando cerca de 60kg, para o outro lado da ponte.

Travessia sob risco
Do outro lado da cidade, próximo ao campo de futebol usado como base do Graer, da Polícia Militar, moradores do povoado Timóteo atravessaram de um lado a outro sobre o que sobrou de uma ponte.

A ponte era a única estrutura que permitia o acesso ao povoado, isolado há dois dias depois que o rompimento das barragens destruiu a ponte.

“Eu fui criado aqui, mas moro no Guarujá (SP). Cheguei tem dois dias, vim passear, e tô com a roupa do corpo. Minhas coisas estão do lado de lá na casa de meu tio e eu tô aqui na casa de um amigo”, disse o estudante Vitor Barbosa, 17. Ele acabou se arriscando e atravessou o que restou da ponte a pé.

Quem também fez a travessia como pôde foi o açougueiro Jercídio Vieira, 32 anos. A carne dos animais abatidos precisava passar para o outro lado. “Tava com dois dias que ninguém passava de um lado pro outro. Nunca ficou desse jeito, mas a água tá baixando, vai ser o jeito ficar atravessando de um lado pro outro. Do lado de lá moram umas 1000 pessoas”, contou.

A recepcionista Marta Verônica Dias preferiu não se arriscar. “Deus me livre, se eu cair aí eu morro, nem sei nadar”, comentou. Ela também está há dois dias na casa da mãe. A moto dela ficou do lado de lá da ponte.

Quem também ficou isolada, mas conseguiu ser resgatada foi Ramona Santos Barbosa. Moradora da comunidade conhecida como Rompe Gibão, próxima a um assentamento sem terra, ela ficou isolada no local, prestes a dar à luz o terceiro filho.

Ramona foi resgatada de casa de helicóptero, por uma equipe do Graer, que foi informada da situação por telefone. Depois de pousar, ela levada para o Hospital Municipal de Coronel João Sá em uma ambulância da prefeitura. “Ela está próximo de dar à luz e poderia entrar em trabalho de parto se viesse pela estrada ou ter alguma complicação, então ela foi trazida para fazer uma consulta com o médico”, disse o coronel Telles, comandante-geral de operações do Corpo de Bombeiros, que acompanhou o resgate.

Apesar da situação estar mais tranquila, as equipes de Bombeiros e Defesa Civil seguem monitorando as diversas pequenas barragens que existem na região. Na manhã deste sábado, a coordenadora de Defesa Civil de Pedro Alexandre, Carla Leão, informou que duas estruturas próximas passariam por avaliação: Lagoa Grande e Serra Torre. “Graças a Deus, amanheceu fazer sol, mas o trabalho é constante”, disse.

Em vistoria realizada na tarde deste sábado (13), o Corpo de Bombeiros Militar e a Defesa Civil do Estado descartaram o risco de rompimento da barragem localizada no povoado de Boa Sorte, em Pedro Alexandre. Na noite desta sexta-feira (12), técnicos do Governo do Estado orientaram 80 famílias a deixarem suas residências, por precaução, em razão do risco iminente que existia de rompimento do equipamento.

Até o momento, segundo informações do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia, 400 pessoas estão desabrigadas e 1.500 desalojadas, em decorrência da cheia do Rio do Peixe, que provocou o rompimento da Barragem do Quati, localizada em Pedro Alexandre, e que também atingiu o município Coronel João Sá.

Por Correio